Eleições: estratégias de Zema e Caiado tentam furar polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro

Com baixa rejeição, mas ainda pouco conhecidos nacionalmente, os dois pré-candidatos querem ampliar alianças e ganhar visibilidade

Quase 70% das intenções de voto estão concentradas entre opresidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL), segundo apontam as últimas pesquisas eleitorais divulgadas no país. Assim, os também pré-candidatos Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) enfrentam o desafio comum de transformar a baixa rejeição em intenção de voto antes que a polarização domine de vez a corrida presidencial.

Especialistas afirmam que o principal obstáculo para os dois não é apenas crescer nas pesquisas, mas convencer eleitores, partidos e lideranças políticas de que ainda existe espaço para uma candidatura competitiva fora dos dois polos.

Na prática, as campanhas dos dois já começam a mirar esse objetivo. Caiado afirmou, nesta quarta-feira (23), que pretende buscar apoio de lideranças da federação formada por PP e União Brasil, apesar da decisão do grupo de adotar neutralidade na disputa presidencial. A declaração foi feita durante um encontro de prefeitos do União Brasil, em Goiânia.

Já Zema cumpre agenda nesta sexta-feira (24) e no sábado (25) no Rio Grande do Sul. Na capital gaúcha, ele tenta se reaproximar da direita e de aliados do PL após ter criticado duramente Flávio, por conta da revelação de seus laços com Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master.

Voto útil

Segundo o cientista político Marcio Coimbra, o grande obstáculo estrutural para a chamada “terceira via” não é a ausência de eleitores moderados ou descontentes, mas sim o chamado voto útil, determinado pela rejeição mútua que tanto Lula como Flávio sofrem.

“Para Zema ou Caiado superarem esse limite de votos, só há dois caminhos: ou um dos candidatos favoritos perde muitos eleitores, ou o público se convence de que eles têm muito mais chance de vencer no segundo turno”, avalia.

Apesar de aparecerem com índices de rejeição menores do que os de Lula e Flávio, Zema e Caiado ainda são pouco conhecidos fora de Minas Gerais e Goiás, respectivamente.

Segundo o especialista, a baixa rejeição muitas vezes apenas revela que parte do eleitorado ainda não conhece suficientemente o candidato para formar uma opinião.

“Quando o ganho de notoriedade ocorre de forma lenta e tardia, o eleitorado prefere se agarrar às lideranças tradicionais, transformando a baixa rejeição de nomes pouco conhecidos em um teto inexplorado e sem apelo de massa”, argumenta.

Narrativa nacional

A cientista política Mayra Goulart, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), avalia que tanto Caiado quanto Zema disputam espaço em um ambiente de polarização permanente, no qual candidaturas intermediárias precisam primeiro conquistar atenção para só depois disputar votos.

“A principal dificuldade de Caiado e Zema hoje não é apenas eleitoral, mas estrutural. Ambos enfrentam um ambiente em que a campanha começa muito antes do período oficial e é organizada por uma lógica de polarização permanente”, ressalta.

Ela lembra que candidaturas que conseguiram romper esse cenário — como as de Fernando Collor, Ciro Gomes e Marina Silva — cresceram em contextos políticos muito diferentes dos atuais.

Para Mayra, desde 2014, a polarização se consolidou em torno do PT e do bolsonarismo, fazendo com que o voto útil apareça cada vez mais cedo e concentre recursos, alianças e atenção nos candidatos considerados viáveis.

Na avaliação da pesquisadora, Caiado e Zema precisariam construir uma narrativa própria, nacionalizar suas lideranças e evitar serem vistos apenas como versões moderadas do bolsonarismo.

“Eles precisam explorar temas em que a polarização ainda não cristalizou posições, como pacto federativo, gestão pública, reforma administrativa, desenvolvimento regional e segurança pública. Deslocar a disputa dos temas identitários é uma das poucas formas de alterar a agenda eleitoral”, salienta.



Alô Valparaíso/* Com as informações do R7 | Foto: Reprodução e Gabriel Pinheiro/CNI