TOC: busca por ajuda demora quase 7 anos

Estudo aponta demora média de quase 7 anos até a busca por ajuda; vergonha e desconhecimento estão entre os fatores que atrasam diagnóstico e tratamento

Pensamentos indesejados sobre machucar alguém. Medo persistente de ter atropelado uma pessoa sem perceber. Dúvidas sobre ter deixado uma porta aberta ou uma torneira ligada. Imagens de conteúdo sexual ou religioso que surgem contra a vontade.

Embora o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) seja frequentemente associado à limpeza e à organização, ele pode assumir formas muito diferentes. Algumas são tão difíceis de revelar que o paciente pode passar anos escondendo os sintomas.

Uma meta-análise internacional publicada em 2025 no Journal of Affective Disorders, com dados de 31 estudos e 5.960 pacientes, concluiu que pessoas com TOC levam, em média, 6,97 anos entre o início do transtorno e a busca por ajuda. O período médio sem tratamento foi estimado em 80,23 meses, ou 6,69 anos.

Os pesquisadores alertam que a demora está associada a um prognóstico menos favorável e defendem estratégias de intervenção precoce. Outra revisão, publicada no fim de 2025, apontou desconhecimento, estigma, medo, negação, desconfiança em profissionais e dúvidas sobre a eficácia do tratamento entre as principais barreiras.

Para a psiquiatra Raíza Alves Pereira, mestre em Medicina e Saúde pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), alguns dos sintomas que mais provocam sofrimento são justamente aqueles que os pacientes têm mais vergonha de revelar.

TOC vai além da “mania de limpeza”

O transtorno é caracterizado por obsessões, como pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos, e compulsões, comportamentos ou atos mentais usados para tentar reduzir a ansiedade provocada por essas obsessões.

Uma pessoa pode evitar dirigir por medo de ter atropelado alguém sem perceber. Outra pode revisar mentalmente uma conversa diversas vezes para descobrir se disse algo ofensivo. Também podem surgir pensamentos involuntários de conteúdo sexual, agressivo ou religioso.

Segundo Raíza, o paciente pode interpretar esses pensamentos como evidência de um defeito moral.

“A maioria dos pacientes reconhece que seus pensamentos são excessivos e incongruentes com o que acreditam. Muitos passam a interpretá-los como evidência de um defeito moral, como se um pensamento tivesse o mesmo peso que uma ação”, afirma.

Ter um pensamento intrusivo, porém, não significa desejar colocá-lo em prática. As obsessões muitas vezes envolvem justamente temas importantes para a pessoa, como filhos, religião, moralidade, responsabilidade e identidade.

Vergonha pode atrasar diagnóstico

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no British Journal of Clinical Psychology encontrou associação positiva entre a intensidade dos sintomas de TOC e a vergonha. Os autores analisaram 20 estudos e apontaram que o sentimento pode dificultar a busca por tratamento e prejudicar a qualidade de vida.

Segundo Raíza, a combinação entre sintomas difíceis de revelar e manifestações que nem sempre são investigadas pode atrasar o diagnóstico.

Um estudo publicado em 2025 com 276 adultos com TOC na Alemanha encontrou tempo médio de 5,58 anos até o reconhecimento do transtorno e de 5,15 anos até a busca por psicoterapia. Pensamentos considerados tabu estavam entre os mais relatados.

Tratamento

O TOC tem tratamento. A Terapia Cognitivo-Comportamental com Exposição e Prevenção de Resposta (TCC-EPR) está entre as principais abordagens psicoterápicas. Nela, o paciente aprende a enfrentar progressivamente situações que despertam obsessões sem recorrer aos rituais usados para aliviar a ansiedade.

Diretrizes e revisões científicas também mantêm a terapia cognitivo-comportamental e medicamentos que atuam sobre a serotonina entre os tratamentos de primeira linha. A escolha depende da gravidade dos sintomas e das características de cada paciente.

A família também pode participar do tratamento. Parentes podem, sem perceber, reforçar o ciclo obsessivo-compulsivo ao participar de rituais ou oferecer repetidamente garantias ao paciente. Esse comportamento é chamado de acomodação familiar.

Para Raíza, ampliar o conhecimento sobre as diferentes manifestações do TOC é importante para reduzir o intervalo entre o surgimento dos sintomas e o tratamento.

“Entender que pensar em algo não é o mesmo que desejar ou agir, e que esses pensamentos são manifestações de um transtorno, não reflexos do caráter, pode transformar a maneira como os pacientes se relacionam com seus sintomas”, afirma



Alô Valparaíso/* Com as informações do SBT News | Foto:  Canva