Dor no pescoço e postura: a culpa é do celular? Entenda

Especialista explica por que a ciência começa a questionar essa relação e mostra que sono, nível de movimento e condicionamento físico precisam ser considerados

Cabeça baixa, olhos fixos na tela e celular nas mãos. A cena se repete no metrô, no trabalho, no sofá e até na cama. Com a popularização dos smartphones, surgiu também uma expressão que se tornou conhecida: textneck, ou “pescoço de texto”. A ideia parece bastante lógica. Quanto mais inclinamos a cabeça para olhar a tela, maior seria a sobrecarga sobre a região cervical e, consequentemente, maior o risco de desenvolver dor.

Essa explicação se espalhou rapidamente e ajudou a criar uma série de recomendações sobre a maneira “correta” de segurar o celular.

O problema é que o corpo humano talvez seja um pouco mais complexo do que isso. Pesquisas recentes vêm questionando se a posição da cabeça durante o uso do smartphone realmente consegue, sozinha, explicar quem desenvolverá dor cervical. E a resposta começa a apontar para uma direção diferente.

Olhar para baixo provoca dor?

Um estudo publicado em 2025 acompanhou pessoas inicialmente sem dor cervical para investigar quais fatores estavam relacionados ao aparecimento do problema. Um dos pontos avaliados foi justamente a postura durante o uso do smartphone. Os pesquisadores não encontraram evidências de que uma maior flexão do pescoço, isoladamente, aumentasse o risco de desenvolver dor cervical.

Isso não significa que permanecer horas em uma posição desconfortável nunca possa causar incômodo. Também não significa que ergonomia seja irrelevante. O que o estudo coloca em dúvida é uma relação muito mais simplista: cabeça inclinada = lesão = dor.

Nosso pescoço foi feito para se movimentar. Flexionar, estender, girar e inclinar a cabeça fazem parte do repertório normal de movimentos do corpo humano. O problema pode estar menos em uma determinada posição e mais no contexto em que permanecemos nela.

Então por que tanta gente sente dor no pescoço?

Essa é justamente uma das descobertas mais interessantes. No estudo, outros fatores apresentaram relação mais importante com o aparecimento de dor cervical, entre eles aspectos relacionados ao sono e à atividade física. E isso combina com aquilo que sabemos atualmente sobre dor.

Dor musculoesquelética raramente depende de uma única variável. Condicionamento físico, qualidade do sono, estresse, tempo sedentário, capacidade muscular, experiências anteriores e condições individuais podem participar da maneira como o organismo responde às cargas do cotidiano.

Uma pessoa pode passar bastante tempo olhando para baixo e nunca apresentar dor. Outra pode desenvolver sintomas mesmo tentando manter uma postura considerada ergonomicamente perfeita. O corpo não funciona como uma estrutura mecânica na qual determinado ângulo necessariamente produz determinado problema.

O mito da postura perfeita

Durante décadas, fomos ensinados a procurar a postura correta. Costas retas. Ombros para trás. Cabeça alinhada. Tela na altura dos olhos.

Ergonomia pode melhorar conforto e determinadas adaptações no ambiente de trabalho são úteis. Mas existe uma diferença entre procurar conforto e acreditar que precisamos manter o corpo permanentemente em uma única posição para evitar lesões.

Nenhuma postura é confortável indefinidamente. Mesmo uma posição considerada excelente ergonomicamente pode começar a incomodar depois de horas sem movimento.

Por isso, uma frase resume melhor a maneira como hoje podemos pensar essa questão: a melhor postura é a próxima.

Sentou? Depois levante. Está olhando para baixo? Em algum momento mude de posição. Passou muito tempo diante da tela? Caminhe um pouco. Nosso organismo é capaz de tolerar diferentes posições. O problema costuma estar menos em uma postura específica e mais em permanecer por longos períodos sem variar o movimento.

Celular e pescoço

Existe ainda outra maneira interessante de enxergar essa discussão. Uma pessoa que passa várias horas no celular pode estar substituindo outras atividades: movimenta-se menos, permanece sentada por mais tempo e, dependendo do horário de uso, pode até dormir pior.

Nesse cenário, culpar exclusivamente o ângulo do pescoço significa olhar para apenas uma pequena parte do problema. O celular pode participar de hábitos associados à dor sem que necessariamente esteja “deformando” ou lesionando a coluna cervical porque olhamos para baixo. Isso muda também a prevenção.

Em vez de viver policiando o ângulo da cabeça, pode ser mais útil aumentar o repertório de movimentos, realizar exercícios físicos regularmente, fortalecer a musculatura, interromper longos períodos de imobilidade e cuidar da qualidade do sono.

E se meu pescoço já dói?

Também não devemos cair no extremo oposto. Dor persistente merece avaliação, principalmente quando é intensa, piora progressivamente ou vem acompanhada de sintomas como perda de força, alterações de sensibilidade ou dor irradiada para os braços.

A mensagem não é ignorar a dor. É evitar que uma pessoa com dor cervical passe a ter medo de movimentar o pescoço porque acredita que determinada posição está “desgastando” sua coluna.

O conhecimento sobre dor musculoesquelética está avançando justamente nessa direção: menos medo do movimento e mais compreensão de que o corpo é adaptável. Talvez, portanto, precisemos aposentar uma parte da história do text neck.

O celular mudou profundamente nossos hábitos e certamente merece atenção por vários motivos. Inclusive, estudos encontram associação entre o uso excessivo de smartphones e dor cervical. Isso,

porém, é diferente de afirmar que o problema seja causado especificamente pelo ângulo de flexão do pescoço ao olhar para a tela. Transformar uma posição normal do pescoço na explicação para toda dor cervical parece cada vez mais insuficiente.

Não precisamos passar o dia procurando a postura perfeita. Precisamos, sobretudo, não passar o dia inteiro na mesma postura.

** Monica Schapiro é fisioterapeuta, especialista em reabilitação oncológica e membro da Brazil Health



Alô Valparaíso/* Com as informações do SBT News | Foto:  Canva

Tabagismo é maior entre jovens de 16 a 24 anos, alerta pesquisa

Maioria dos fumantes mantêm outros hábitos prejudiciais à saúde

Os jovens brasileiros de 16 a 24 anos apresentaram incidência de tabagismo maior que outras faixas etárias em uma pesquisa do Instituto A.C. Camargo Câncer Center em parceria com a empresa Nexus.

Nessa faixa etária, 19% dos entrevistados se declaram fumantes ativos, de cigarros comuns ou eletrônicos, número acima da média nacional (17%) e de todas as outras faixas etárias. A pesquisa entrevistou mais de 2 mil pessoas em todo o país.

A faixa entre 25 e 40 anos, por outro lado, apresenta o menor índice de tabagismo, com 15% dos entrevistados declarando serem fumantes. Em seguida, surge o grupo das pessoas com mais de 60 (16%), e de 41 a 59 anos (17%).

Além disso, os dados apontam que grande parte da população está exposta aos perigos do tabagismo: cerca de um terço da população brasileira (33%) compartilha frequentemente ambientes domésticos ou de trabalho com fumantes. A inalação passiva da fumaça eleva as chances de desenvolvimento de câncer pulmonar, inclusive em indivíduos que jamais fumaram.

Segundo Helano Freitas, líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo, a incidência do tabagismo entre os jovens entre 16 a 24 anos exige atenção prioritária. O médico ressalta que, conforme levantado na pesquisa, o primeiro contato com o cigarro ocorre, em média, aos 16 anos.

Por se tratar de um grupo de adolescentes e jovens adultos bastante vulnerável, há um alto risco de iniciação na dependência sem conseguir deixá-la posteriormente, ainda que as demais idades também necessitem de cuidado.

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A população com mais de 60 anos lidera o índice de ex-fumantes, com 32% do total. Em segundo lugar, aparecem pessoas de 41 a 59 anos (15%), de 25 a 40 (10%) e de 16 a 24 anos (8%).

Entre as regiões do país, o consumo de cigarro é superior no Sul (22%), seguido do Sudeste (19%), Nordeste (13%) e Norte/Centro-Oeste (13%).

A pesquisa também demonstra que o consumo de cigarros está atrelado a fatores socioeconômicos. Os entrevistados que possuem renda salarial de até um salário mínimo apresentam a maior taxa de tabagismo, com 19%. Já em relação ao nível de escolaridade, aqueles que concluíram apenas o ensino fundamental também apresentam o maior índice de tabagismo, com 21%. 

O estudo indica ainda uma forte relação entre o tabagismo e outros comportamentos de risco: 84% dos fumantes relataram manter até quatro hábitos prejudiciais à saúde no cotidiano, destacando-se o sedentarismo e a ingestão exagerada de frituras e produtos ultraprocessados.

Em contrapartida, 18% das pessoas que nunca fumaram afirmam não ter nenhum hábito prejudicial à saúde, o dobro do índice observado entre os fumantes (9%). Já os ex-fumantes lideram a categoria de apenas um hábito ruim (44%) e apresentam baixas taxas de múltiplos deslizes.

O cenário sugere que abandonar o cigarro costuma vir acompanhado de uma reestruturação ampla do estilo de vida, restando apenas um deslize residual na rotina.

Outro dado do estudo revela que 63% dos fumantes classificam a própria saúde como “ótima” ou “boa”. Essa percepção positiva supera inclusive a das pessoas que jamais fumaram (61%), ainda que a diferença esteja contida na margem de erro, demonstrando que os fumantes se consideram tão saudáveis quanto os não fumantes.



Alô Valparaíso/* Com as informações da Agência Brasil | Foto:  Divulgação/Agência Brasil

Lei cria Junho Vermelho para incentivar doação de sangue

Norma prevê ações de conscientização e iluminação de prédios públicos

O mês de junho passará a integrar o calendário de ações de incentivo à doação de sangue. De acordo com a Lei 15.491/2026, o poder público produzirá materiais educativos e campanhas com foco no aumento dos estoques nos hemocentros do país. Outra medida prevista é a iluminação de prédios públicos na cor vermelha.

A lei estabelece ainda que a implementação das ações deverá respeitar a disponibilidade orçamentária e ocorrer de forma articulada entre União, estados, Distrito Federal e municípios.

As atividades também deverão estar alinhadas às diretrizes do Ministério da Saúde.

Segundo o texto, a campanha busca fortalecer as iniciativas de conscientização sobre a necessidade de doações regulares de sangue. 

Tais medidas são consideradas essenciais para o atendimento de pacientes em tratamentos médicos, cirurgias, emergências e outras situações que demandem transfusões.



Alô Valparaíso/* Com as informações da Agência Brasil | Foto:  Hemorio/Divulgação

TOC: busca por ajuda demora quase 7 anos

Estudo aponta demora média de quase 7 anos até a busca por ajuda; vergonha e desconhecimento estão entre os fatores que atrasam diagnóstico e tratamento

Pensamentos indesejados sobre machucar alguém. Medo persistente de ter atropelado uma pessoa sem perceber. Dúvidas sobre ter deixado uma porta aberta ou uma torneira ligada. Imagens de conteúdo sexual ou religioso que surgem contra a vontade.

Embora o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) seja frequentemente associado à limpeza e à organização, ele pode assumir formas muito diferentes. Algumas são tão difíceis de revelar que o paciente pode passar anos escondendo os sintomas.

Uma meta-análise internacional publicada em 2025 no Journal of Affective Disorders, com dados de 31 estudos e 5.960 pacientes, concluiu que pessoas com TOC levam, em média, 6,97 anos entre o início do transtorno e a busca por ajuda. O período médio sem tratamento foi estimado em 80,23 meses, ou 6,69 anos.

Os pesquisadores alertam que a demora está associada a um prognóstico menos favorável e defendem estratégias de intervenção precoce. Outra revisão, publicada no fim de 2025, apontou desconhecimento, estigma, medo, negação, desconfiança em profissionais e dúvidas sobre a eficácia do tratamento entre as principais barreiras.

Para a psiquiatra Raíza Alves Pereira, mestre em Medicina e Saúde pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), alguns dos sintomas que mais provocam sofrimento são justamente aqueles que os pacientes têm mais vergonha de revelar.

TOC vai além da “mania de limpeza”

O transtorno é caracterizado por obsessões, como pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos, e compulsões, comportamentos ou atos mentais usados para tentar reduzir a ansiedade provocada por essas obsessões.

Uma pessoa pode evitar dirigir por medo de ter atropelado alguém sem perceber. Outra pode revisar mentalmente uma conversa diversas vezes para descobrir se disse algo ofensivo. Também podem surgir pensamentos involuntários de conteúdo sexual, agressivo ou religioso.

Segundo Raíza, o paciente pode interpretar esses pensamentos como evidência de um defeito moral.

“A maioria dos pacientes reconhece que seus pensamentos são excessivos e incongruentes com o que acreditam. Muitos passam a interpretá-los como evidência de um defeito moral, como se um pensamento tivesse o mesmo peso que uma ação”, afirma.

Ter um pensamento intrusivo, porém, não significa desejar colocá-lo em prática. As obsessões muitas vezes envolvem justamente temas importantes para a pessoa, como filhos, religião, moralidade, responsabilidade e identidade.

Vergonha pode atrasar diagnóstico

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no British Journal of Clinical Psychology encontrou associação positiva entre a intensidade dos sintomas de TOC e a vergonha. Os autores analisaram 20 estudos e apontaram que o sentimento pode dificultar a busca por tratamento e prejudicar a qualidade de vida.

Segundo Raíza, a combinação entre sintomas difíceis de revelar e manifestações que nem sempre são investigadas pode atrasar o diagnóstico.

Um estudo publicado em 2025 com 276 adultos com TOC na Alemanha encontrou tempo médio de 5,58 anos até o reconhecimento do transtorno e de 5,15 anos até a busca por psicoterapia. Pensamentos considerados tabu estavam entre os mais relatados.

Tratamento

O TOC tem tratamento. A Terapia Cognitivo-Comportamental com Exposição e Prevenção de Resposta (TCC-EPR) está entre as principais abordagens psicoterápicas. Nela, o paciente aprende a enfrentar progressivamente situações que despertam obsessões sem recorrer aos rituais usados para aliviar a ansiedade.

Diretrizes e revisões científicas também mantêm a terapia cognitivo-comportamental e medicamentos que atuam sobre a serotonina entre os tratamentos de primeira linha. A escolha depende da gravidade dos sintomas e das características de cada paciente.

A família também pode participar do tratamento. Parentes podem, sem perceber, reforçar o ciclo obsessivo-compulsivo ao participar de rituais ou oferecer repetidamente garantias ao paciente. Esse comportamento é chamado de acomodação familiar.

Para Raíza, ampliar o conhecimento sobre as diferentes manifestações do TOC é importante para reduzir o intervalo entre o surgimento dos sintomas e o tratamento.

“Entender que pensar em algo não é o mesmo que desejar ou agir, e que esses pensamentos são manifestações de um transtorno, não reflexos do caráter, pode transformar a maneira como os pacientes se relacionam com seus sintomas”, afirma



Alô Valparaíso/* Com as informações do SBT News | Foto:  Canva