Lulistas e bolsonaristas se veem como radicais, diz Ipsos

Simpatizantes de Lula e de Flávio Bolsonaro têm visões mais parecidas do que imaginam; descompasso de percepção aumenta entre pessoas com ensino superior

Lulistas e simpatizantes de Flávio Bolsonaro enxergam o grupo político adversário como mais distante de suas próprias posições do que ele realmente é. Isso é o que mostram os resultados da segunda pesquisa More in Common/Ipsos-Ipec, que mediu o chamado “descompasso de percepção” (perception gap) entre os dois campos políticos.

Divulgado neste domingo (23), o levantamento ouviu 2.000 pessoas em 130 municípios brasileiros, entre os dias 6 e 10 de agosto.

No relatrório “Lulistas e bolsonaristas: descompasso de percepção”, o diretor-executivo da More in Common, Pablo Ortellado, explica que, atualmente, esse tipo de pesquisa tem o objetivo de medir o quanto “esses erros de percepção exageram as diferenças entre os grupos políticos, levando a hostilidade, polarização política e comportamentos antidemocráticos”.

A pesquisa, que não mede intenção de voto, considera como “bolsonaristas” os entrevistados que declararam ter mais simpatia por Flávio Bolsonaro do que por Lula, e como “lulistas” aqueles que disseram ter mais simpatia por Lula.

Os 18% que não declararam simpatia por nenhum dos dois ficaram fora da análise.

Para verificar o descompasso, os pesquisadores apresentaram aos dois grupos afirmações associadas a estereótipos atribuídos ao campo político adversário. Depois, compararam a opinião efetiva dos entrevistados com aquilo que o outro grupo imaginava que eles responderiam.

Ideias de quem simpatiza com Flávio

Um dos resultados mostra que os simpatizantes de Flávio Bolsonaro têm posições mais favoráveis à igualdade social e de gênero do que esperam os lulistas.

Em uma escala de 0 a 100, na qual 0 significa discordância total e 100 concordância total, os bolsonaristas deram nota média de 86 à afirmação de que é positivo que pessoas pobres possam viajar de avião e frequentar lugares antes restritos aos mais ricos.

Os lulistas estimaram que a média entre os bolsonaristas seria de apenas 69.

A diferença é ainda maior na questão da igualdade salarial entre homens e mulheres: os bolsonaristas deram 94 pontos para a afirmação de que homens e mulheres devem receber o mesmo salário quando realizam o mesmo trabalho, enquanto os lulistas estimaram uma média de 73.

Até mesmo na defesa da democracia há diferença, embora menor: a média dos bolsonaristas foi de 71 para a afirmação de que nenhum presidente deveria poder fechar o Congresso e acabar com a democracia. Os lulistas estimaram 65.

Lulistas também diferem do estereótipo

Na direção contrária, o cenário se repete. Em algumas questões, lulistas demonstram posições mais conservadoras do que os bolsonaristas imaginam.

A maior diferença aparece na afirmação de que “ser pobre não é desculpa para cometer crimes”. A média de concordância dos lulistas foi de 86, mas os bolsonaristas estimaram que seria de apenas 67.

Na defesa da autonomia financeira, os lulistas deram nota média de 84 à afirmação de que todos deveriam trabalhar para ter a própria renda, sem depender do governo. A expectativa dos bolsonaristas foi de 65.

A diferença também aparece na valorização da família: a média dos lulistas chegou a 95 para a afirmação de que “a família é a base de tudo”, enquanto os bolsonaristas estimaram 72.

Segundo a análise de Ortellado, o descompasso entre percepção e realidade é, na maioria das afirmações, da ordem de 20 pontos em uma escala de 0 a 100.

A organização resume o resultado afirmando que lulistas são mais “conservadores” e “liberais” do que imaginam os simpatizantes de Flávio Bolsonaro, enquanto bolsonaristas são mais “progressistas” e “democratas” do que imaginam os lulistas.

Escolaridade aumenta o descompasso

A distância na percepção do outro é maior entre pessoas com ensino superior. Não houve diferença significativa no descompasso quando os entrevistados foram separados por sexo ou faixa etária, mas a escolaridade produziu diferenças importantes.

Entre lulistas com curso superior, por exemplo, a diferença entre a opinião efetiva dos bolsonaristas e a percepção que eles têm sobre o adversário chega a 27 pontos na afirmação sobre pobres viajarem de avião e a 33 pontos na questão da igualdade salarial.

No conjunto dos lulistas, as diferenças nessas duas questões são de 17 e 21 pontos, respectivamente.

Entre bolsonaristas com ensino superior, o descompasso cresce de forma mais moderada. Na questão sobre a necessidade de trabalhar para ter renda própria, a diferença chega a 25 pontos; na afirmação sobre a família ser a base de tudo, chega a 27 pontos.

“Pessoas com ensino superior têm percepções mais distorcidas sobre o que pensam os adversários políticos. Em algumas afirmações, a distância quase dobra com relação a quem não tem ensino superior”, diz o relatório.

Na análise de Ortellado, isso mostra que o descompasso não é uma estimativa errada, causada por ignorância ou pouco estudo.

Ele afirma que pesquisas internacionais encontraram esse mesmo padrão e a mesma assimetria, e diz que não há consenso sobre por que isso acontece.

“A explicação com mais apoio empírico é a de que os mais escolarizados convivem com pessoas politicamente parecidas com elas. Outras hipóteses são que os mais escolarizados usam modelos mentais mais abstratos, que terminam caricaturando os adversários e que consomem mídias mais alinhadas às próprias posições, amplificando os vieses”, fala.

Entre as hipóteses mencionadas também está o consumo de meios de comunicação alinhados às próprias opiniões.

Mais parecidos do que imaginam

A conclusão da pesquisa é que a polarização política pode ampliar artificialmente a percepção de distância entre os grupos. Nos seis temas analisados, nenhuma das afirmações teve média de concordância inferior a 70 pontos.

De acordo com a More in Common, os bolsonaristas demonstram forte apoio à promoção social dos pobres, à igualdade salarial entre homens e mulheres e à democracia.

Os lulistas, por sua vez, rejeitam a ideia de que a pobreza justifique crimes, defendem que as pessoas tenham sua própria renda e atribuem grande importância à família.

Para a organização, o que separa os dois grupos não são apenas suas posições sobre questões concretas, mas também as identidades políticas e os estereótipos construídos sobre quem pertence ao campo adversário.

Entenda a pesquisa

Para medir a percepção distorcida que simpatizantes de Lula e de Flávio Bolsonaro fazem do eleitor adversário, os pesquisadores partiram de três características que pessoas de esquerda costumam atribuir às pessoas de direita: que elas seriam contrárias à igualdade social, que seriam contrárias à igualdade entre homens e mulheres e que não teriam apreço pelo regime democrático.

“Depois, pegamos três características que pessoas de direita costumam atribuir às pessoas de esquerda: que elas seriam lenientes com os criminosos, que estimulariam a dependência do Estado e que seriam contra a família”, descreve o relatório.

Cada uma dessas posições foram transformadas em afirmações. Os simpatizantes de Lula foram questionados sobre o quanto concordam com os estereótipos sobre a esquerda, numa escala de zero a dez, na qual zero é discordo totalmente e dez é concordo totalmente.

Aos simpatizantes de Flávio foi pedido para estimarem como simpatizantes de Lula teriam respondido, e vice-versa. A diferença entre expectativa e realidade é o “perception gap”, o descompasso de percepção.



Alô Valparaíso/* Com as informações do SBT News | Foto:  Ricardo Stuckert